Especial



Uma vez me disseram que eu não era especial. Assim na cara dura mesmo, sem nem que eu pedisse a opinião. Chegou, olhou nos meus olhos e disse: fulano é especial para nós, mas você não. Eu geralmente sou do tipo que responde rápido, mas às vezes simplesmente paraliso. Nesse dia eu só fiquei olhando para a pessoa e me perguntando se ela parecia de algum transtorno mental.

Não vamos banalizar os transtornos mentais, o diagnóstico dela era falta de noção crônica. Acontece. Não que ela fosse obrigada a me guardar num lugarzinho especial dentro do coração dela, mas também não precisava me atacar gratuitamente. O pior é que ela mexeu numa ferida minha que eu tento, com todo o esparadrapo do mundo, esconder. Eu queria muito ser especial.

E se você está aí pensando: Ah, mas você é especial para alguém! Só que não é esse nível de apreço que eu queria. Eu queria ser ou fazer algo extraordinário, que fizesse com que muitas pessoas pensassem que eu era especial, algo tipo Michael Jackson, um talento que atravessa gerações, e encanta, e emociona, e brilha. Ou eu poderia escrever poesia como Djavan, porque mesmo que ele não cantasse, o que ele faz muito bem, as letras poderiam ser declamadas e alcançariam o lugar mais recôndito da nossa alma do mesmo jeito.

Ou eu poderia cantar, dançar e compor como Shakira, mas de loba eu só tenho os hábitos noturnos mesmo, que no meu caso não é hábito, é insônia. É o mais próximo dela que eu consigo chegar. Eu poderia ser uma Sandy, que tal? Voz encantadora, talento, também ótima compositora, ela nem precisa se esforçar para ser maravilhosa. Se eu fosse falar de todas as pessoas extraordinárias que eu conheço, não teria apenas uma crônica, daria um livro. E nem me refiro apenas ao meio artístico não, tem pessoas talentosas em todas as áreas.

Já que eu tenho talento zero para música, eu poderia escrever como Machado de Assis, ou quem sabe ser a nova "Dostoiévska". Mas não. Nem vou falar o que acho da minha escrita, você pode tirar suas próprias conclusões. O fato é que para que eu consiga fazer algo minimamente bom, bonzinho, meeiro, eu tenho que me esforçar muito, mas muito mesmo, e ainda assim não vai chegar nem aos pés daqueles que eu admiro. Como se não bastasse minha falta de talento para qualquer área da vida, ainda tenho preguiça. Preguiça de tentar. E medo. Medo de dar errado e de dar certo.

Pensando bem, talvez eu seja boa em uma coisa: dizer a coisa errada na hora errada, aí não tem para ninguém, sou mestre. Mas acho que isso não conta... É por isso que sigo fazendo o básico. Continuo assim, devagar e sempre. O jeito é me conformar e contemplar esses talentosos, famosos e anônimos, que enchem nossas vidas de alegria, poesia e . 

Eu sou sonhadora. Nos meus sonhos eu sou talentosa e reconhecida. Nele eu dou autógrafos, tiro foto com os fãs e escuto eles falarem como a minha obra impactou a vida deles, como eles se emocionaram e tiveram suas vidas mudadas. No meu sonho não tem hater, embora eu acredite que os haters são o termômetro do sucesso, já viu algum famoso sem hater? Então. Mas, já que é para sonhar, eu sonho apenas com o bônus, finjo que não tem ônus.

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