RESET



Eu sou péssima com videogames. Desde sempre. Eu tentei, juro que tentei. Na época do MEGA DRIVE, quando todo mundo jogava Sonic, eu dei o meu melhor para entrar na onda, mas não rolou. Quando chegaram os jogos em 3D aí foi que deu ruim. O personagem que eu tentava controlar ficava girando igual uma barata tonta e às vezes se prendia na parede e eu não conseguia avançar no jogo. Mas não desisti fácil. Tentei os jogos de corrida. Era incrível como eu conseguia dirigir na grama e não na pista, um mistério que nunca desvendei. Até que reconheci minha limitação e fiquei jogando apenas Paciência, ou Solitaire

De todas as minhas tentativas o que sempre me motivou foi a possibilidade de resetar. Quando o jogo não estava indo bem ou eu perdia, dava para resetar e começar tudo de novo. Era só selecionar a opção e tudo voltava ao modo como era antes, os personagens estavam intactos e eu tinha todas as oportunidades de novo. Sem traumas. O melhor de tudo era que eu ainda tinha comigo a experiência, as fases que eu passaria seriam as mesmas, eu já sabia o que esperar, era só aproveitar a oportunidade, cada vez que reiniciava eu tinha mais chances, já estava treinada. Novas oportunidades para o mesmíssimo desafio.  

Assim como nos jogos, alguns aparelhos eletrônicos vêm com a função de resetar. Sabe quando o computador ou o celular está ruim, travando, lento, a gente reseta e ele fica parecendo novo, todo zerado como quando veio da fábrica? Sabe quando bagunçamos todas as configurações do aparelho e não sabemos mais como resolver o problema? É só resetar. Na vida, deveríamos ter essa opção. Quando fizéssemos uma besteira ou tomássemos uma decisão errada? Reset. Falei algo inapropriado, no momento mais inapropriado ainda? Reset. Fiz um investimento — financeiro ou de qualquer outra natureza — que não deu certo? Reset. Não seria ótimo poder simplesmente resetar, ficar tudo zerado, sem traumas, uma nova chance para um desafio já conhecido? No entanto, o que temos é quase sempre um caminho sem volta, porque mesmo quando conseguimos remediar uma situação trágica ou aflitiva, não saímos ilesos, é trauma que não acaba mais. 

Nunca teremos a mesma oportunidade de novo. Por mais que pareça ser. Suponhamos que me ofereceram uma proposta de emprego e eu recusei, e me arrependi. Se por acaso me oferecem de novo, a proposta pode até ser a mesma, mas eu não serei. Quem está no jogo agora é a minha versão desesperada, em pânico, a que precisa a todo custo fazer dar certo, pois não é sempre que temos uma segunda chance. A ansiedade de não perder essa oportunidade pode ser o fator decisivo para colocar tudo a perder. Tendo eu aceitado na primeira oferta seria uma outra versão minha atuando.  

Quando minha vida está travada, ou lenta, sem conseguir passar para a próxima fase, eu não tenho a opção de resetar. Só me resta juntar os cacos e seguir dali mesmo, me arrastando, com o emocional em frangalhos. Não tem um botão que eu pressione e posso reconfigurar, fazer novas escolhas, mudar algumas ideias que pairam na minha cabeça, não dá para começar do zero. Os medos, os pesos, as cismas, as paranoias, as memórias são atributos que conseguirei no máximo aprender a lidar, mas não tenho como apagar definitivamente, a não ser quando tudo se torna tão pesado e difícil que meu próprio cérebro, sem a minha autorização, decide agir, mas não de forma saudável. 

No jogo da vida, não só as fases são assustadoras e surpreendentemente complexas como também não há limites para a dificuldade de cada “chefão” que enfrentamos, é sempre um pior que o outro. A experiência que se adquire numa etapa não facilita a próxima, só receber conselhos de quem já passou de fase não adianta. A vontade que dá é de pegar o controle e entregar para alguém, pelo menos terei a quem culpar, por mais que isso seja incoerente. Já que não dá para resetar, só nos resta continuar lutando usando todos os elementos de ajuda disponíveis evitando ao máximo o GAME OVER. 

Comentários