Sou da época da Legião Urbana, conheço todas as músicas e muitas eu sei de cor, algo que não consigo mais fazer com as músicas atuais, deve ser coisa da idade, uma delas se chama “Dia Perfeito” e uma parte delas diz que “são as pequenas coisas que valem mais” e eu concordo plenamente, nem precisei ter uma experiência de quase morte, nem estou tão idosa assim para perceber essa verdade incontestável. Estou naquela fase em que os idosos me chamam de jovem e os jovens me chamam de velha. O puro suco da crise existencial.
No entanto, já consigo apreciar as coisas simples da vida que trazem felicidade genuína no momento em que elas estão acontecendo. Devo confessar que refletir sobre cada acontecimento da minha vida é bastante cansativo, mas pelo menos tenho essa recompensa de perceber e valorizar esses momentos tão simples que me trazem uma alegria profunda e duradoura, em situações difíceis de lidar recorro à memória delas para me trazer um pouco de energia para seguir em frente.
Por exemplo, o mundo pode estar desabando sobre minha cabeça, mas se eu entro no carro, coloco aquela música que eu consigo acompanhar a letra, principalmente as que dá para gritar — nesse instante eu estou só, não posso melhorar meu estado mental causando transtornos aos outros — e dirijo cantando e performando, é capaz até de eu esquecer que tenho problemas na vida. Pelo menos até parar num sinal e alguém buzinar no exato instante, no milésimo de segundo que o sinal abriu.
A mesma felicidade eu sinto quando como uma das minhas comidas favoritas, começo a apreciar cada aroma, cada sabor, pego partes separadas e alterno misturando vários itens do prato para sentir as texturas, as misturas e as nuances. Durante a apreciação, estou focada e quase nada é capaz de me abalar, a não ser que depois de esperar tanto tempo para apreciar aquela comida que esperei por dias e paguei caro, não vem do jeito que eu idealizei.
Eu já consegui realizar muitos sonhos de criança, sou muito grata por isso, mas já prestou atenção na alegria e no sentimento de realização que dá quando você consegue fazer uma criança sorrir? Está pensando que é qualquer um que consegue? Não é não! Fazer uma criança sorrir ativa todos os meus neurotransmissores da felicidade, e eu me sinto tão realizada, alcancei uma meta, eu penso. Outro dia uma criança de cinco anos virou para mim e falou: Tia, você é muito engraçada! Senti que podia fazer qualquer coisa nesta vida.
Se sua família é grande, provavelmente você já teve um daqueles encontros em que muitos se reúnem, geralmente para uma refeição, aí é aquela bagunça: todo mundo falando ao mesmo tempo, alguns gritando, uns rindo, outros brigando. Num desses momentos, eu me afastei um pouco e fiquei por alguns instantes observando em silêncio e tive uma sensação de prazer que não sei como explicar.
De cada um desses pequenos momentos, dessas pequenas coisas, faço um recorte, assim como numa fotografia, para voltar a eles sempre que necessário — esses retornos têm sido mais necessários ultimamente — assim eu saboreio de novo aquela felicidade e satisfação cada vez mais escassos. Quando estou angustiada tentando alcançar grandes coisas eu paro e penso que são nas pequenas que eu encontro consolo, alívio e paz.

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