MULTIPROCESSADOR



Minha mãe sempre quis ter um multiprocessador de alimentos, ela via na TV e nas revistas muitas receitas que seriam mais fáceis de executar usando esse aparelho, para algumas ter um processador era imprescindível. Mas o que ela queria de verdade era o multiprocessador, que além de processar alimentos, tinha liquidificador, espremedor de frutas, picador, ralador, batedor e por aí vai, tudo num único aparelho. Acabou que ela nunca teve um. Quando tinha interesse em cozinhar, não tinha dinheiro para comprar um, quando a situação financeira melhorou, ela já tinha perdido o interesse por cozinhar. 

Aparelhos multifunções sempre atraiu a atenção dos consumidores, pois a vantagem de pagar por um único aparelho que pode ser usado em diversas situações é bem interessante, tá aí o smartphone que não me deixa mentir, o que a gente menos faz com ele é uma ligação telefônica. Todas essas máquinas surgiram para facilitar a vida do homem, ou complicar, porque o tempo que teoricamente sobraria com esses facilitadores é preenchido com mais responsabilidades. 

Acumular funções deveria se restringir às máquinas, olhe ao seu redor e terá que concordar comigo. Do ponto de vista econômico é bem atraente ter uma única pessoa que consegue cumprir vários papéis e resolver diversos problemas, com certeza quem estiver usando essa pessoa estará gostando muito. No entanto, acho que é uma limitação do produto mesmo: o ser humano não consegue dar conta de muitas atribuições ao mesmo tempo, quer dizer, conseguir até consegue, todavia logo para de funcionar; será bom para os outros, não para si mesmo. E se estiver pensando em agir mecanicamente para não ser criticado, pode esquecer, vão reclamar por você ser desumano. Não se pode tratar o humano como máquina e esperar que ele aja como humano. Tenho a impressão de que tudo neste mundo está desconfigurado. 

A romantização da desumanização do trabalhador deve ser um dos queridinhos da indústria farmacêutica. Existe ainda uma visão social equivocada de que a pessoa que não tem tempo para se divertir ou é inacessível por ter muitas atribuições é considerada alguém importante e bem-sucedida, os que aplaudem esse estilo de vida serão os primeiros a tacarem pedra quando esse indivíduo surtar. 

Muitas vezes as tarefas são assumidas por livre e espontânea pressão, ou entra no jogo ou rua, e os boletos não se pagam com amor, nem sei quem acumula mais rápido: os boletos ou as tarefas? Ninguém sabe mais se trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar. Do jeito que o mercado de trabalho é competitivo, querer trabalhar e preservar uma boa saúde física e mental é muita audácia. 

No mais, chega um momento em que o aparelho de tanto ser usado em suas multitarefas deixa de funcionar. A princípio apresenta alguns sinais, vai perdendo algumas funções até que para de vez, aí então o aparelho é descartado e substituído por outro. Muitas vezes seu dono nem reconhece o tanto que ele trabalhou e como doou todo seu potencial, não está funcionando direito ou parou de funcionar: joga no lixo. E não estou falando de eletrodoméstico. 

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