GRATIDÃO



A linguística me encanta, sou fascinada pelas palavras e o uso delas, como são poderosas. Claro que tenho muito que aprender, mas uma coisa é certa, nem todo mundo dá o devido valor às palavras. Na época da escola, o estudo da gramática me perturbava, embora eu gostasse, achava que tudo era um exagero. Agora, mais experiente, percebo a utilidade dessas regras e como elas fazem diferença quando vamos registrar algo por escrito, se nossa intenção for ser compreendido, é claro. Com o devido uso das regras gramaticais é possível registrar algo claro e seguro, como também é possível escrever algo dúbio e usar as entrelinhas para se safar de um problema; é raro, mas acontece com frequência. 

Assim, me peguei analisando o uso da palavra Gratidão, que embora seja um substantivo — termo usado para nomear coisas — vejo uma insistência em entendê-la como verbo, descrevendo uma ação; não estou falando do verbo “Agradecer”, não, é sobre o substantivo “Gratidão”. Você vai entender. 

Quando alguém te faz um favor ou ato de bondade é de bom tom agradecer (verbo) seja por meio de palavras ou de ações e você também pode mostrar gratidão (substantivo) em palavras ou ações também, aí que surge a confusão. Quando você agradece parece que colocou um ponto final na história, no entanto hoje em dia isso não é mais suficiente, pois conforme a palavra Gratidão foi distorcida, agora exige-se em troca uma subserviência eterna por parte do agradecido.  

Se alguém te deu uma oportunidade de emprego, então você não deve agradecer — expressar seu agradecimento e dar o seu melhor no trabalho —, mas sim mostrar gratidão que consistirá em trabalhar em regime de escravidão física e mental, fazer tudo o que o seu algoz, sob o manto da benfeitoria, pedir não importa o dia ou a hora, quem vem em primeiro lugar é a vontade do seu mestre, não mais sua família, saúde ou dignidade. Reclamar é um delito, será condenado por ingratidão. 

Se num momento de desespero alguém pede um dinheiro emprestado (meu conselho é que você não peça, mas se pedir, pelo menos pague), do ponto de vista de quem empresta, o solicitante se tornou seu escravo, isso é até um provérbio bíblico. Todavia esteja ciente que poderá ser enquadrado no regime de gratidão eterna, mesmo depois de pagar o que devia sua servidão poderá ser solicitada. Se quem te emprestou um dia precisar de um empréstimo, por exemplo, você será obrigado a fornecer mesmo que não tenha, não importa, dá teus pulos, gratidão, lembra? 

Quando dizemos: serei eternamente grato, não significa que vendemos nossa alma, significa que lembraremos da bondade, da ajuda e estamos agradecidos, em alguns casos retribuiremos de forma limitada o favor; ou então não foi feito um favor e sim uma compra. Qual é a validade de um favor? Quando a gratidão prescreve? Não estou aqui pregando a ingratidão. Equilíbrio, pessoal, equilíbrio. 

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