FAÇA SUA PARTE!



Estou tão decepcionada comigo mesma que preciso compartilhar esse sentimento. Eu sou lerda, o raciocínio de uma tartaruga, as coisas acontecem e uma semana depois eu tenho alguma reação. É irritante e frustrante, é terrível. No calor do momento, quando mais preciso, paraliso. Mas a raiva de mim vem logo, na velocidade da luz.

Uma vez soube de um gatinho que estava sozinho, não sei o que aconteceu com a mãe e os outros filhotes, foi encontrado numa oficina, mas ele era muito novinho, olhinhos ainda fechados, e eu pedi o gatinho para que eu pudesse cuidar. Era época de chuva e o bichinho chegou até mim com as patinhas geladas, miando desesperadamente, eu logo procurei aquecê-lo, fiz uma caminha improvisada, coloquei bastante pano e o aconcheguei, mas ele sempre saía, miando e atrás de mim. Como sou esfomeada, imaginei que ele também estivesse com fome, fiz um leitinho morno e dei para ele usando uma mamadeira para gatinhos.

Durante a madrugada acordei várias vezes com os miados e ele sempre estava fora da caminha, eu pegava e o colocava de volta. Essa cena se repetiu durante toda a madrugada, até que enfim ele adormeceu. Na manhã seguinte ele estava bem fraquinho, molinho, tentei alimentá-lo mas ele mal se mexia, até que faleceu. Depois de tudo, recorri à internet para saber onde eu tinha errado, e descobri uma lista de erros, mas a que me fez chorar de tristeza e de raiva de mim mesma foi saber que ele precisava de calor, se eu ao menos o tivesse colocado no meu colo e o aquecido com meu calor, e acho que era isso que ele procurava durante a madrugada fria, as chances dele sobreviver seriam maiores. Inclusive descobri que manter um filhote aquecido é tão importante quanto dar comida, existem várias estratégias para fazer isso e eu escolhi a mais errada de todas. Nunca superei. 

Esses dias estava dirigindo e tinha um filhotinho de gato, esse bem maior, ele parecia desorientado, então parei o carro e o trânsito, para resgatá-lo, mas um carro que vinha em alta velocidade não percebeu o que acontecia e acabou atingindo o gatinho. Ele começou a se contorcer bem ali na minha frente. Eu o peguei, ele sangrava, e na pressa do trânsito eu apenas o acomodei na calçada, longe da pista, voltei ao carro e segui viagem.

Comecei a me perguntar: o que foi que eu fiz?. Nada, absolutamente nada! Fiquei com tanta raiva. Minhas mãos ainda estavam manchadas com o sangue do pobre gatinho que agora devia estar sofrendo horrores, por que não o trouxe comigo? Então comecei a pensar em diversas situações em que eu visto o manto do “fiz a minha parte” e não calculo exatamente as minhas ações.

O “fiz a minha parte” muitas vezes é usado indevidamente para justificar um trabalho mal feito, com má vontade ou pela metade, geralmente quando sei que poderia ter feito mais e não fiz, então tento me consolar e me absolver me convencendo de que fiz a minha parte, será? Como saber o tamanho da minha parte? O “fiz a minha parte” usado como desculpa é negligência. Se eu não tivesse decretado que minha parte estava feita, eu poderia ter feito mais e de fato feito a diferença, e não estou falando apenas de gatos.

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