BENEFÍCIOS




Quem não gosta de brinde? E de conseguir produtos usando pontos do cartão de crédito? Descontos progressivos? E viajar usando milhas? Um sonho, não é? Eu falei com o gerente do banco em que tenho conta e perguntei se ele não teria um cartão que juntasse pontos mais facilmente. Depois de analisar meu perfil, ele me fez uma oferta, mas não fiquei satisfeita, iludida. Acontece que o gerente tem uma visão mais realista da minha condição financeira do eu mesma, contrariado, ele me ofereceu um outro cartão com inúmeros benefícios, e pontos a perder de vista. Eu, seduzida, quis saber como poderia adquirir aquela maravilha, foi então que meu sonho definhou: eu precisaria pagar oitocentos reais de anuidade que poderia ser parcelada. 

Mas pensa aqui comigo: se eu tivesse oitocentos reais para gastar com anuidade de cartão de crédito eu precisaria juntar pontos para trocar por produtos? Já notou que quanto maior o salário da pessoa mais benefícios adicionais ela recebe? Quem pode pagar, não precisa pagar. Quem pode sair, não precisa sair. Quem pode esperar, não precisa esperar. 

Às vezes eu sinto que não sou deste planeta, fui deixada aqui por engano, sou uma correspondência extraviada. De onde surgiu a brilhante ideia de conceder incontáveis benefícios para quem não precisa de nenhum? Claro que a estratégia serve ao seu propósito: fazer quem pode comprar ainda mais. E não estou falando que não pode acontecer, só ressalto que minha estranheza é o fato de que para ter os benefícios a condição básica é não precisar deles. 

Um dia desses eu estava aguardando atendimento numa repartição pública, passava um pouco das sete da manhã, de acordo com meu relógio biológico ainda era madrugada, e ouvi duas pessoas, que assim como eu aguardavam atendimento, conversando: 

— Levei meus filhos na escola e tive que pedir meu horário de almoço adiantado para poder estar aqui. Nos dias que tenho folga, aqui não funciona e não posso ficar saindo do trabalho, se eu perder esse emprego aí é que a coisa vai ficar feia! 

— É difícil, não é? Eu espero não ter que vir aqui nunca mais! 

— Mas a gente vem porque é obrigado! 

O que poderia ser feito para que ela não precisasse passar por isso para ser atendida? Não precisar do atendimento! Ela estava solicitando na justiça um tratamento de saúde, porém se a condição financeira dela fosse melhor, ela não precisaria estar tão cedo naquele local. Sendo VIP, ela teria um atendimento personalizado e mesmo podendo sair do trabalho para resolver questões pessoais, não seria necessário fazê-lo, independentemente de ser um estabelecimento público ou privado, não enfrentaria fila, não precisaria esperar. 

Não sou tão inocente assim, sei que é uma questão puramente financeira, queria que não fosse, mas questiono: é ético? 

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