Cresci brincando com a boneca Barbie, apesar de ser de família humilde, meus pais se esforçavam em me presentear com artigos da Barbie, sempre que possível. Assim, além da Barbie eu tive o Ken e alguns itens da casa dela que eram maravilhosos. Enquanto eu brincava, eu me sentia inspirada a ser bonita e bem-sucedida, ter uma profissão, independência financeira e um namorado bonitão, é claro.
Com o passar dos anos, tenho observado uma dificuldade das pessoas — crianças, adolescentes e até adultos — de fazerem a distinção do que é real e do que é imaginário. Antigamente eu assistia aos filmes das princesas e sabia que não iria aparecer, embora eu quisesse muito, um herdeiro de um reino montado num cavalo que se apaixonaria por mim perdidamente. Na verdade, uma das primeiras lições que aprendi com meus pais foi que não se pode ter tudo que queremos, faz parte da vida. Eu sei que o mundo real pega pesado às vezes. Então, quando possível lutamos, quando não, nos conformamos.
Eu e as crianças com quem convivi assistíamos a desenhos como Looney Tunes e Pica-Pau — que frequentemente agredia, explodia e maltratava seus adversários — e nunca reproduzíamos os comportamentos dos desenhos nas nossas brigas infantis, o que acontecia era brincarmos de ter superpoderes e fingir que eliminávamos o inimigo. De vez em quando tinha uns tapas e uns puxões de cabelo, mas logo pedíamos desculpas e voltávamos a brincar como se nada tivesse acontecido.
Meus pais também me ensinaram de forma muito sábia, nem sei que método usaram para isso, que existe sim pessoas mais bonitas que eu e com habilidades que eu não tenho, da mesma forma que, dependendo do ponto de vista, eu posso ser mais bonita que alguém e ter habilidades que outros não têm. Eu aprendi que a realidade pode ser dura, às vezes, mas também podemos ter bastante motivos para nos alegrar.
Mas hoje as pessoas não podem mais se frustrar, nem ficar triste, nem fracassar. Para viver uma vida livre de desilusões você teria que ser uma boneca e não um humano. Querem anular o outro, para não ter que lembrar das próprias limitações e problemas. Se você é bonita e bem-sucedida, você ofende quem não é. Isso para mim beira a loucura!
A falta de preparo para enfrentar a realidade é tão grande que as pessoas querem criar e viver num mundo de fantasias, onde você pode tudo, exceto dizer que elas querem viver num mundo de fantasias. A única coisa que conseguimos até agora com isso foram altos índices de doença mental. Muitos estão doentes por não conseguirem lidar com o mundo real e o restante por conviver com esses que estão doentes.
Mesmo que a Barbie nunca tivesse sido inventada, sempre convivi com pessoas com beleza e habilidades melhores que as minhas, doía um pouco. No entanto, para me sentir melhor não é necessário que todos sejam feios e ineptos, basta que eu entenda que todos temos pontos fortes e fracos, absolutamente todos nós, sem exceção. Tento usar meus pontos fortes a meu favor e melhorar os pontos fracos, na medida do possível. Como dizia minha avó: quem não tem cão, caça com o gato. Exatamente, não me confundi, COM O GATO. Dessa forma faz todo o sentido para mim.
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