VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

 


        Na adolescência costumávamos brincar de verdade ou consequência: um grupo sentava em círculo com algum objeto no centro, geralmente uma garrafa, que girava indicando um para fazer a pergunta “verdade ou consequência?” e outro para respondê-la, se escolhesse “verdade” responderia, em teoria, a qualquer pergunta com sinceridade, se escolhesse “consequência” teria que pagar uma prenda, a mais comum era beijar ou abraçar alguém escolhido pelo inquisidor.

  Estava implícito: quando não trabalhamos com a verdade sofremos consequências. Mas era uma lição muito profunda para uma brincadeira tão rasa, pois já estava combinado quem queria beijar quem, essa era nossa principal preocupação. Mesmo que escolhesse “verdade”, ninguém estava disposto a fazê-lo. Assim nos acostumamos a escapar das consequências por usar a mentira, ou preferimos enfrentar as consequências a ter que encarar a verdade, levamos isso para a vida toda.

Chegamos então ao momento em que não é possível confiar em nada, há quem ainda se arrisque, mas estamos cada vez mais céticos. Para fazer as pessoas aceitarem que um produto ruim é bom, eu pago alguém que influencia milhões de seguidores para afirmá-lo, se alguém se atreve a dizer o contrário, paga-se outros tantos influenciadores para desacreditar o rebelde e voilà: popularidade e lucro.

A técnica é usada para produtos, serviços e opiniões. Tem dado tão certo que as pessoas agora têm medo de falar, algo que todo mundo pensa, e ser cancelado, perdendo seu espaço, seguidores, emprego e a chance de mudar de ideia. Não há mais espaço para discussão, ou você fala o que eles querem ouvir: o que um determinado grupo aceita como verdade ou sofrerá as consequências. Tem que dançar conforme a música, mas a música não é você quem escolhe.

        Aos poucos a internet foi reforçando esse modus operandi, a novidade que eleva essa ideia ao clímax é o metaverso, nele poderemos ser quem quisermos, anunciam, o significado de “ser” estará então distorcido no mais alto grau. Até que ponto vale a pena fingir ser, imaginar ser? Ser de verdade não deveria valer mais? E quando nos desconectarmos, suportaremos a realidade? Ou seremos capazes de relativizar também o significado do que é ser real? Quando perdermos totalmente a noção do que é real e verdadeiro, o que nos separará da loucura?

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