Toda noite

 



    Layla se desmanchava em lágrimas, já sentia a cabeça doer e na garganta um nó, no peito um aperto e a respiração difícil, por mais esforço que fizesse em puxar o ar, ele simplesmente não entrava, não conseguia olhar diretamente para o rosto faiscante de sua mãe, que andava de um lado para outro da casa, enfurecida e esbravejando insultos, mesmo assim reuniu forças e perguntou:

     Mas mãe, o que foi que eu fiz?

     Você é muito sínica mesmo! Não adianta derramar suas lágrimas de crocodilo não! Comigo não funciona mais!

     Meu Deus! Eu não estou entendendo nada! Por que a senhora está me chamando de mentirosa, falsa, vulgar e todas essas coisas? Eu só estou pedindo para me explicar o que aconteceu!

     Não se faça de vítima! Sonsa! Dessas caladinhas, a gente tem medo! Depositei toda a minha confiança em você e fui apunhalada pelas costas. Mas bem que me avisaram que todo o carinho que eu te dei ia te tornar uma pessoa ingrata, mas eu queria cuidar bem, dar o tratamento que eu não tive, acabei mimando demais e agora olha o que recebo em troca? Uma mal-agradecida que zomba de mim pelas costas, me fazendo de besta todo esse tempo! Mas não caio mais no seu joguinho não, de agora em diante tudo vai ser diferente!

Sara foi para o quarto colocando para fora toda a raiva que estava guardada, descontando na porta que acabara de bater. Layla continuou na sala com os olhos afundados n’água, ainda sem entender o porquê de tanto ódio. Tentou puxar na mente possíveis motivos para tamanho alarde, sem sucesso. Tudo parecia muito sombrio, pois antes de ir para a escola estava tudo bem, não havia nenhum sinal de descontentamento, as duas conversaram tranquilamente sobre as atividades do dia, almoçaram juntas e se despediram com um beijo afetuoso no rosto antes de Layla sair para a escola. Agora ao retornar tudo era um caos, até seu pai evitava olhá-la nos olhos; seu irmão passava em sua frente, mas a ignorava, aparentava temer que lhe perguntassem algo e evitava contato visual com qualquer um e achou melhor trancar-se no quarto, por fim Layla levantou-se e foi cabisbaixa para seu quarto.

Layla continuava desesperadamente, usando o restante de fôlego e energia que lhe sobrara, encontrar uma resposta para o que estava acontecendo. Todo esse tempo tentou fazer de tudo para agradar sua mãe, deixando de lado até mesmo suas vontades, não era uma filha perfeita, mas sempre se esforçava. Lembrou que acabara de terminar o namoro, mas pensou em seguida que sua mãe nem gostava tanto assim do rapaz, mesmo que fosse por isso, em que sentido ela seria mentirosa e falsa? Toda a família tinha conhecimento do namoro e sabia que teria um fim, então possivelmente não era esse o motivo.

Enquanto suas lágrimas encharcavam o travesseiro, quase sem conseguir respirar de tanta angústia, confusão e dor, fez mais um esforço para encontrar uma razão para aquela turbulência. Pensou, pensou mais um pouco e já se sentindo tonta, acordou.

Sentiu um alívio profundo, conseguiu puxar o ar para dentro de seus pulmões com toda força possível, o coração ainda estava acelerado e mesmo se sentindo confusa, pois tudo parecera tão real. Olhou ao seu redor e percebeu que estava deitada em sua cama. Quando conseguiu sentir-se mais calma e tentando não pensar no porquê de tal pesadelo decidiu levantar-se, pois já passava das nove horas e tinha muita coisa para fazer naquele dia.

Colocou os pés no chão gelado e olhando para a janela percebeu que lá fora estava tudo escuro, estranhou, levantou-se e foi até a sala. Ficou assustada, com a boca aberta e com os olhos abertos o máximo possível tentava entender o que estava acontecendo. Onde foram parar as paredes? Os móveis? Cadê todo mundo? Ainda de pijama foi até a rua, que era visível de dentro do que sobrou da sua casa, o muro também já não existia. As ruas estavam um caos: muitas casas aos pedaços, outras totalmente destruídas, muitas pessoas corriam desesperadas de um lado para outro sem saber para onde iam, ouvia-se muitos gritos e barulhos de explosões.

Com as mãos na cabeça, Layla olhava de um lado para outro tentando encontrar um rosto conhecido, alguém que pudesse dar alguma informação. Não muito longe dali era possível ver que algo pegava fogo, o chão mais a frente parecia ter cedido, alguns curiosos tentavam olhar para dentro da cratera que havia se formado, outros se espremiam na borda tentando atravessá-la. Layla ainda com uma das mãos na cabeça e outra na boca como se tentasse segurar o queixo que teimava em cair, com o coração acelerado, começou a correr na mesma direção que a maioria seguia. Em meio a fumaça e a escuridão rompida pelo clarão do fogo, Layla espremia e arregalava os olhos alternadamente procurando a melhor maneira de focar no rosto das pessoas que passavam tentando encontrar alguém conhecido.

Ouviu um miado que parecia próximo, após procurar um pouco na direção do som viu embaixo de alguns escombros um gatinho assustado, Layla se abaixou para pegá-lo, conseguiu colocá-lo em seus braços e acariciá-lo, mas logo em seguida uma explosão ecoou e o pobre gatinho se jogou de seus braços e sumiu na escuridão. Quando não conseguiu mais segurar tamanha aflição e solidão, Layla deixou-se cair com os joelhos no chão e com as mãos no peito deixou sair um choro alto com um grito de desespero que não foi ouvido por ninguém, nem sequer em sua direção olharam. Já sem forças, Layla se deitou no chão e olhando para o céu viu um crescente clarão, acordou.

Acordou já sentando-se impulsionada pelo susto que o pesadelo lhe proporcionou, mas percebeu que não estava em casa, estava numa rua estranha, parecia um beco escuro e húmido. Uma névoa cobria sua visão à frente, mesmo assim, confusa, sem nem ainda ter se recuperado do pesadelo que acabara de acordar, mas pensando em como a última medicação prescrita não a deixava nem viver nem dormir bem, levantou-se.

Saiu cambaleando segurando na parede e de repente sentiu o pé afundar na areia, ao levantar o olhar percebeu que estava numa praia, mas não conseguiu discernir qual. O sol ainda estava se erguendo, tudo parecia deserto. Apesar do toque suave da luz em seu rosto ser agradável foi tomada por um sentimento de preocupação, pois não lembrava como tinha chegado ali nem sequer tinha noção de onde estava. Mas ao longe conseguiu ver um grupo de pessoas, então tentou correr ao encontro delas, porém suas pernas não respondiam, por mais que se esforçasse cada passada era difícil, como se estivesse em câmera lenta.

Não conseguindo correr, optou por dar saltos, mas os movimentos lunares eram angustiantes, no horizonte o grupo de pessoas avistado parecia cada vez mais distante. A respiração estava pesada assim como seus passos e tentativas de pulos, resolveu assim gritar, alguém poderia ouvir e vir socorrê-la. Por mais que tentasse a voz não saía, foi acometida por uma rouquidão inexplicável, o máximo que conseguia eram sussurros. Com as mãos estendidas gritava, gritava e nada saía. Agora de seus olhos já se precipitavam algumas lágrimas e ofuscava ainda mais a visão de quem poderia socorrê-la.

Puxou o ar com toda a força que podia e gritou tão fortemente que caiu de joelhos na areia com os braços estendidos na direção do grupo que sumia. Olhou ao redor e não havia ninguém, com o sol agora já forte em seu rosto se recolheu cruzando seus braços em volta do peito e chorando percebeu que não conseguia mais sentir o ar, o fim havia chegado. Acordou.


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